“MINHA EXPERIÊNCIA ANIMADA NA MOSCA 9” por Michel Geraissate

Pelo segundo ano seguido, ministrei uma oficina de animação na MOSCA. O projeto animado é filho da mostra: em 2012, fizemos a primeira Estação Animação na Escola Paraíso em Américo Brasiliense (cidade do interior de São Paulo) durante a itinerância da MOSCA 7. Desde então, a oficina foi ganhando corpo, incorporando novas técnicas e foi levada a vários outros espaços (quem tiver curiosidade, pode acessar o material do projeto aqui). Seja qual for a técnica, uma coisa sempre salta aos olhos: a facilidade de apreensão e criatividade sem limites das crianças.

A oficina da MOSCA 9, onde trabalhamos o pixilation (vídeo acima), aconteceu em um momento em que eu estava estudando as fases do desenvolvimento da criança na matéria de Psicologia da Educação (estou no 5º semestre da faculdade de Letras), o que me permitiu observar o comportamento delas com um pouco mais de conhecimento acadêmico – particularmente, foi bastante interessante pra mim.

Como a oficina depende do entendimento de alguns conceitos da narrativa, sempre peço que as crianças tenham, no mínimo, 7 anos. E particularmente neste ano, alguns alunos simplesmente participaram do processo de todas as outras turmas – o que pra mim, significa que eles gostaram bastante! Tenho duas hipóteses pra isso ter acontecido:

1. fazer uma animação é divertido demais, e o tom de brincadeira tem forte apelo entre eles;

2. eles são absolutamente protagonistas dos próprios filmes – no sentido mais amplo do termo.

Quando eles percebem que têm o poder nas mãos, do início ao fim, o processo todo flui melhor e é mais prazeroso, já que o resultado final depende do esforço coletivo. Eu apenas instigo a discussão das ideias, mas as crianças são as decisoras dos rumos da história – eu apenas veto ideias que, por falta de estrutura e/ou tempo, não podem ser realizadas. O que normalmente acontece é ter alguma criança mais extrovertida que a outra, que acaba iniciando a discussão. Depois que a primeira ideia aparece, começam a surgir propostas suficientes para a criação de um longa metragem. Elas também já são totalmente capazes de criar histórias compreensíveis, e entender o conceito de conflito, fundamental para qualquer narrativa se desenrolar. Normalmente, quando existem pessoas mais velhas nas turmas, algo que acontece com alguma frequência, elas praticamente não participam; não por vergonha ou timidez, mas simplesmente por não conseguirem acompanhar a velocidade de pensamento e possibilidades imaginadas pelos mais novos. Quando alguém vem na minha direção e, só pra mim, propõe uma ideia diferente da que foi combinada, eu sempre digo: você tem que falar isso com eles, proponha para a sua turma, não pra mim. E nesse momento é possível notar como elas estão aptas a identificar uma ideia boa e, se for o caso, mudar um pouco o rumo da história. Senso crítico apurado – quase sempre, eu concordo com a decisão do grupo sobre qual ideia deveriam seguir. É claro que eu tenho uma opinião sobre a sugestão, mas eu nunca falo o que eu acho, deixo para eles decidirem.

Essa dinâmica horizontal é poderosa e eficiente demais. Porém, muitas delas – talvez todas – não têm contato com esse tipo de relação com o aprendizado, e isso ficou evidenciado num breve diálogo que tive com uma das aluninhas que passaram pela oficina. Um pouco de contexto: no local onde eu explicava a técnica, havia uma área na parede pintada com aquela tinta de lousa, que permite que você escreva com giz e apague depois. Reproduzo aqui a conversa – infelizmente, não me lembro das exatas palavras:

Aluna: – Você podia usar essa lousa, né?
Eu: – Sério? Você quer que eu faça isso mesmo, igual na escola?
Aluna, percebendo o que tinha acabado de sugerir: – Opa, claro que não! Assim é bem mais legal!

Claro que é mais legal! Durante a oficina, elas me ouvem por 5 minutos, e depois assumem a prática. Isso não chega nem perto do modelo escolar tradicional; sugerido pela aluninha e logo refutado por ela mesma! E agora que estou estudando isso, vejo como a escola desperdiça o potencial dos seus alunos com um modelo didático totalmente datado. Me lembro de um educador relatando seu choque ao ouvir a diretora de uma escola dizendo que uma criança era uma folha em branco. A analogia não só é errada como evidencia o descolamento dos docentes em relação a seus alunos. É urgente a necessidade de horizontalizar o ensino e colocar os alunos no centro do aprendizado – e não encará-los como algo que precisa ser preenchido. Bem melhor do que eu escrevendo, é lermos esse trecho do livro Pedagogia do Oprimido, do pensador-educador-monstro*, Paulo Freire:

“A narração, de que o educador é o sujeito, conduz os educandos à memorização mecânica do conteúdo narrado. Mais ainda, a narração os transforma em “vasilhas”, em recipientes a serem “enchidos” pelo educador. Quanto mais vá “enchendo” os recipientes com seus “depósitos”, tanto melhor educador será. Quanto mais se deixem docilmente “encher”, tanto melhores os educandos serão. (…) Eis aí a concepção “bancária” da educação, em que a única margem de ação que se oferece aos educandos é a de receberem os depósitos, guardá-los e arquivá-los. Margem para serem colecionadores ou fichadores das coisas que arquivam.”

Desculpem a digressão! Voltando…

A experiência na MOSCA é sempre muito rica e transformadora. Porque por mais que você leia a respeito de animações, ou assista diversas delas, nada substitui a experiência de fazer a própria animação. Isso dará uma nova perspectiva pra quando elas lerem o próximo livro ou assistirem ao próximo filme. E isso pode ser extrapolado pra qualquer área de conhecimento. Nada como a escola da vida. Nada como o fazer.

A interação e a troca com eles é o que faz valer todo o esforço de dormir pouco, acordar cedo e trabalhar muito! E claro, assistir as animações na telona, com a sala de cinema cheia e os alunos ansiosos pra ver o resultado final é demais. Pra mim, o processo todo se completa nesse momento. É a confirmação de que as oficinas, tanto para quem ministra, quanto para quem participa, são fundamentais para o desenvolvimento mútuo.

Ministrar uma oficina desperta em mim um sentimento que eu jamais senti em qualquer outro trabalho que fiz na vida. O tempo que passo com cada turma me mostra que é possível me relacionar com o mundo de uma forma diferente, construtiva, onde todos evoluem juntos. Da minha parte, vou continuar em busca dessa sensação.

Meu “muito obrigado” a todas as crianças que me proporcionaram sentir tudo isso. Continuo ansioso para conhecer outras!

Michel Geraissate

PIXILATION_5  PIXILATION_7 

PIXILATION_10  PIXILATION_8  PIXILATION_1

PS: *monstro = melhor dos melhores ; )

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